Os agricultores pararam a Europa contra a guerra na Ucrânia. E nem sabem disso.

(Raquel Varela, in Facebook, 02/02/2024)

Além da melhor coleção de boinas do mundo, ontem os agricultores da Europa deram uma lição. Sem a história não se compreende nada, nem porque há tantos vegetarianos estropiados na Ucrânia, nem a transição verde europeia que destrói o Brasil. A história é muito melhor que o GPS.

A transição do feudalismo para o capitalismo só é possível com a expropriação dos camponeses, que passam a assalariados agrícolas de grandes propriedades. Estas dores de parto geram revoltas épicas, com efeitos de arrastamento em toda a sociedade. Não há mi-mi-mi e negociações delicadas, é com foices no século XIX e tratores no XX. Lutam a sério. Lutam com as armas de trabalho.

A PAC (Política Agrícola Comum) é o instrumento europeu mais bem-sucedido para garantir expropriação sem expropriação, ou seja, a agricultura torna-se capitalista, produzindo com recurso a técnicas intensivas culturas escolhidas (leite e cereais), mas os agricultores recebem subsídios para manter uma quantidade razoável de pequenos e médios agricultores no campo, lado a lado com as grandes explorações, evitando assim as suas revoltas, . A tese mais importante sobre isto é de um historiador social-democrata, europeísta convicto e sério, Kiran Patel, com quem trabalhei em Munique. Foi ele que me chamou a atenção para este facto essencial – a PAC foi a contenção dos camponeses e só ela tornou possível a UE porque evitou as revoltas (pode ser lido no seu livro Project Europe).

Assim, a mais capitalista das explorações, propriedade de bancos, convive na Europa, com o pequeno e médio agricultor.

A queda da taxa de lucro das empresas na Europa, depois de 2008, levou-as em busca de uma nova fase de expropriações. Agora só há lugar para as grandes corporações que querem arrasar com o que resta dos pequenos agricultores, abrindo o mercado ucraniano às corporações norte-americanas e europeias (para quem tinha dúvidas fica claro o objetivo “democrático” no apoio à guerra na Ucrânia: é que as terras da Ucrânia ocidental foram vendidas em 2019 por Zellensky) e ao Mercosul, onde países como o Brasil têm 40% da população a passar fome mas são chamados a virar toda a produção para o mercado europeu, com soja, por exemplo, que alimenta a carne na Europa.

Enquanto não convencem todos os europeus a serem vegetarianos – como se o consumo de proteína animal não fosse essencial ao cérebro – e martelam que comer animais faz mal à saúde e à alma, fazem dos europeus a carnificina dos lucros. A UE/corporações económicas, aqui pilotadas pela líder de direita alemã e ultraliberal Úrsula, decretam que os produtos da Ucrânia entram sem taxas, diminuem as do Mercosul (Brasil e Argentina), e fazem entrar produtos do Norte de África sem garantias e controlo sanitário assegurado, enquanto aqui exigem aos agricultores controles burocráticos insustentáveis e kafkianos. Ah! Claro, tudo isto em nome da “transição verde”, “ecologia” e “sustentabilidade”, as palavras que Úrsula usa mais, enquanto desembolsa 50 mil milhões de euros dos nossos impostos para armamento à Ucrânia – destruída -, mais guerra, mas sempre chamando-lhe sustentabilidade e democracia.

A tentativa de expropriar os camponeses teve uma reação em cadeira gigante, chama-se luta de classes – é preciso deixar de ter medo das palavras, senão não se explica nem compreende a sociedade. Ontem houve luta de classes, e os de cima ficaram ansiosos, recuaram nas leis, despejaram milhões em poucas horas para parar os tratores de avançar sobre as capitais, onde os acionistas de bancos comem carne do lombo com trufa negra e champanhe.

Úrsula quer lucros para capitalizar a terra, são os bancos e os seus acionistas que querem ser donos das terras. Os agricultores pararam a Europa em resposta, em apenas um dia, toda a Europa parou. Nenhuma lei contra o corte de estadas foi acionada porque, como dizia o mestre Howard Zinn, historiador: “se queres quebrar a lei fá-lo com, pelo menos, 2 mil pessoas”. Não querem tornar-se assalariados agrícolas, mais uns milhares de homens e mulheres a trabalhar como nepaleses, escravos apinhados em contentores. É contra isto que lutam, contra a sua proletarização.

Os partidos do centro liberal e da extrema-direita gritam contra os imigrantes mas apoiam as leis de expropriação, as armas para a Ucrânia e toda a panóplia de leis que vão fazendo de agricultores, meros proletários. Ontem a RTP, aliás na voz de Rodrigues dos Santos, abriu o telejornal comparando, no mesmo universo, os assalariados agrícolas com os agricultores!, não compreendendo o elementar: são duas realidades completamente distintas, um pequeno agricultor que recebe subsídios e um proletário que apanha fruta.

Tudo está em disputa. A Rússia, juntamente com os EUA, Argentina e Brasil são os maiores produtores. A Rússia está com as terras mais férteis, inclusive as da Ucrânia oriental, pois a invasão completou o acesso da Rússia à maior fatia das “terras negras”, as mais produtivas. A NATO crescia para leste, justamente para ter acesso a elas, a estas terras.

Por isso os acordos de Minsk nunca foram cumpridos – o choque já criou milhões de refugiados ucranianos, mais mão-de-obra barata na Europa. É que nada se perde em capitalismo: nem mesmo os estropiados e os cadáveres dos mortos de guerra deixam de gerar lucros na conta do funeral. É o dinheiro. O vil dinheiro, o mercado a funcionar. Ontem, a UE e os EUA, com o voto de vencido de Orban (que queijo limiano terá ganho este parceiro do Chega?!) largou mais 50 mil milhões, para a guerra. A guerra deles, onde morre quem trabalha.

É o estado da UE, ou como diziam os agricultores belgas, quando deixaram estrume na capital Bruxelas: “esta não é a minha UE”. Que vivam os agricultores!


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5 pensamentos sobre “Os agricultores pararam a Europa contra a guerra na Ucrânia. E nem sabem disso.

  1. Os agricultores na União Europeia estão bem longe das preocupações de Bruxelas. O aumento do preço dos combustíveis está directamente rrelacionado com as sanções à Federação Russa e era totalmente previsível desde o início, mas Bruxelas e os governos da Eutopa ocidental nunca menvionam as sanções que os próprios decidiram como fonte dos problemas dos agricultores. Felizmente houve uma parte dos agricultores europeus que não se deixou enganar por estes mentirosos compulsivos, entre os quais o inevitável demagogo André Ventura.

  2. Os primeiros a manifestarem-se foram os agricultores polacos e ainda não pararam. O que espanta é que a UE seja tão diligente e mãos largas com a Ucrânia e seja tão sovina para com os seus agricultores, que se confrontam com a concorrência desleal dos cereais ucranianos e ainda pagam uma parcela dos apoios que a UE canaliza para a Ucrânia.

    Espanta, também, que a comunicação social não estabeleça a ligação entre uma coisa e a outra e que a revolta dos agricultores, apesar de ser a uma escala europeia, seja vista apenas como consequência de políticas meramente agrárias e ambientais.

  3. E a senhora está se a esquecer das gororobas importadas dos Estados Unidos onde ainda se estão mais nas tintas para os controles sanitários que os do Norte de África.
    Há umas semanas comprei umas amendoas, sabiam a tudo menos amêndoa, doce ou amarga. Fui ver de onde vinham, o destino das coisas foi o lixo sendo que se há criatura avessa a deitar comida fora tendo em conta o que vai pelo mundo sou eu.
    Porque a coisa tinha um sabor tão estranho que eu tive medo que fizesse mal. E já basta o tal veneno experimental terceirizado na Alemanha que me meteram no corpo.
    Mas isto a malta sabe que tem de ter cuidadinho.
    E se não sabe o que convenceu Orban a deixar ir mais dinheiro para os herdeiros espirituais de quem varreu a tiro as minorias húngaras na Ucrânia, as ameacas contra a economia húngara foram públicas. Ninguém mandou dizer por ninguém.

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